Fala-se muito de inteligência artificial, mas falta, sobretudo, inteligência organizacional. Fala-se de tribunais do futuro, mas quem trabalha na justiça sabe que o futuro ainda não entrou pela porta. Enquanto se anunciam plataformas digitais, há funcionários que começam o dia a verificar se há papel higiénico, que passam meses sem papel para secar as mãos, que improvisam capas e contracapas já usadas, enquanto as resmas chegam tarde e em pouca quantidade. Procuram canetas que escrevam, ajustam cadeiras que cedem e fazem da rotina um exercício de resistência. Não é exceção, é regra. E quem representa estes profissionais não pode aceitar que a dignidade do serviço público se meça em resmas.
Custa ouvir discursos sobre modernização quando faltam até os materiais que sustentam o trabalho diário. A inovação começa na organização, no planeamento e na gestão que respeita quem trabalha. Ao Ministério das Finanças exige-se investimento; a quem dirige, responsabilidade. Com tantas faltas, começo a suspeitar que o Estatuto ainda não passou ao papel — talvez porque falte papel no Ministério da Justiça.



