Recortes de Imprensa

Faltam entre 1.900 e 2.000 oficiais de justiça – Jornal da Madeira – 10set2026

Sobre as promoções, a presidente do SFJ destaca “duas conquistas importantes”: por um lado, apesar de as novas regras exigirem licenciatura para acesso às carreiras, os profissionais não licenciadosjá em exercício não ficam arredados das promoções, às quais podem concorrer em igualdade de circunstâncias com os colegas diplomados; por outro, que se possa aceder a uma promoção ao fim de 12 anos de antiguidade e não de 16, como pretendia inicialmente o Governo. Sobre a regulamentação do acesso à carreira, Regina Soares disse esperar que com o diploma agora publicado se abram concursos para novos oficiais de justiça, apontando um défice entre 1.900 a 2.000 nos tribunais. Disse ainda esperar que Ministério da Justiça e Ministério das Finanças “assumam, no planeamento plurianual, a entrada de pelo menos quinhentas a seiscentas pessoas ainda este ano”. Segundo a presidente do SFJ, neste momento aposentase um oficial dejustiça por dia, em média, saídas a que sejuntam baixas prolongadas e mudanças de carreira, reduzindo o quadro de funcionáriosjudiciais disponíveis.

(Re)colocações kafkianas – Correio da Justiça – CMJornal

Há um nome para isto: kafkiano. Todos os anos, os oficiais de justiça podem candidatar-se a mudar de tribunal. É esse concurso, chamado movimento, que decide onde cada um trabalha. Só que há quem concorra a um tribunal, não consiga vaga e continue à espera. Há quem, sem nunca ter concorrido àquele tribunal, acabe a trabalhar durante longos anos numa colocação provisória que nunca termina. É aqui que se torna kafkiano. Um trabalhador concorre, não obtém vaga, e aparece preenchida no papel por outra pessoa que, na prática, nunca ali exerceu porque foi colocada noutro sítio. Passam-se anos e a situação mantém-se provisória, sem nunca se resolver; como um processo há anos sem sentença. Quem espera pelo concurso para ir para onde quer fica a olhar para um lugar que existe no papel. Quem está colocado provisoriamente sabe que ali ficará, mesmo sem essa ser a colocação formal, porque ninguém esclarece por quanto tempo. Não é uma falha pontual. É um mecanismo que se instalou e que transforma o provisório em permanente sem que ninguém o decida abertamente. São pessoas, com vidas e expectativas, à espera de uma decisão que a administração parece preferir adiar.

Regresso das férias judiciais marcado pelos mesmos problemas. Ministério reforça meios – DN – 08set2026

Setembro arrancou com o início dos trabalhos e a continuação de questões há muito apontadas por quem está no terreno, como a insuficiência de profissionais, salas sem infraestruturas e a preocupação com os casos de violência doméstica. Ao DN, o gabinete de Rita Júdice afirma que quer “transformar estruturalmente o funcionamento da Justiça”.

Oficialmente, o ano judicial começa em janeiro, mas é em setembro, após as férias de verão, que o ar é de recomeço. Nesta volta aos trabalhos, quem trabalha na área da Justiça sente que muitos dos problemas persistem. É o caso da infraestrutura dos ambientes de trabalho, marcada pelo calor intenso em verões cada vez mais longos, e da falta de recursos humanos, que acaba por ter consequências para os cidadãos.

As várias entidades representativas de profissionais desta área são unânimes em demonstrar preocupação com casos de violência doméstica, em que “todos os processos são urgentes”, mas nem sempre se consegue que assim seja. “Os nossos colegas choram, estão desesperados, trabalham muito para conta de tudo. No Seixal, por exemplo, há mais de 22 mil casos de violência doméstica, não há oficiais para tudo”, começa por dizer ao DN Regina Soares, presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ).

De acordo com a oficial de justiça, os funcionários estão “esgotados”, com muitos casos de burnout e baixas prolongadas, além das aposentações não repostas. No primeiro dia após a volta das férias, foi realizado em Lisboa um plenário informal, onde ficou decidido promover uma reunião a nível nacional no dia 18. Serão debatidas ideias como “vigílias à hora de almoço, um cordão humano de norte a sul, greve de três dias”. A estimativa do sindicato é que faltam dois mil oficiais de justiça.

Ao DN, o gabinete de Rita Alarcão Júdice “reconhece que existem necessidades de reforço de recursos humanos nos tribunais e tem vindo a atuar nesse sentido”. Referiu o recrutamento de 570 oficiais de justiça em 2025 e que está em “curso a revisão do regime de recrutamento da carreira”. Citou também a entrada em vigor, na semana passada, de um novo diploma que possibilita “novos ingressos na carreira especial de oficial de justiça e a realização de promoções à categoria de escrivão” e “contribuindo para o reforço da capacidade de resposta dos Tribunais e a valorização das carreiras destes profissionais”.

Falta de magistrados no MP

Paulo Lona, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), diz ao DN que “os problemas são os mesmos, ano após ano”. O mais grave, entende ser a falta de magistrados do MP. “O maior problema é a escassez de magistrados do Ministério Público e isso faz com que os que estão ao serviço sejam sobrecarregados e com muitas acumulações”, destaca Lona. “A falta de profissionais está a causar transtornos muito grandes”, complementa.

Os casos de violência doméstica soam alarmes. “Na violência doméstica quem trabalha nessa área sofre um desgaste enorme. Todos os processos são urgentes, é preciso dar resposta em tempo útil às solicitações, nomeadamente da proteção das vítimas. Quem trabalha diariamente nesta matéria tem volumes processuais enormes e não conseguem dar resposta efetiva, porque não é realmente possível”, afirma. A situação é agravada, segundo o magistrado do MP, pela escassez de recursos humanos em outras funções, como oficiais de justiça para cumprir os despachos.

O SMMP defende um concurso extraordinário com 200 vagas, mas tal não ocorreu. Esta é a alternativa apresentada porque o processo de formação é longo. “Quanto mais tempo demora até tomarem consciência de que é imprescindível formar mais magistrados do Ministério Público, mais se atrasa este período até chegarem efetivamente ao exercício de funções”, vinca.

Ao DN, o Ministério da Justiça afirma que “as medidas já adotadas permitirão que, entre 2026 e 2028, se verifique um reforço de 270 novos magistrados, entre magistrados em regime de estágio e magistrados em primeira nomeação em regime de efetividade”. No curso que inicia em outubro, o MJ determinou que existam mais vagas para o MP do que para juízes. Estão previstas 89 vagas para o Ministério Público em 2026, o que representa um aumento de 79% face a 2024. Em março deste ano, entraram em funções 51 novos magistrados do Ministério Público, com previsão de mais 52 em março de 2027.

Sobre a violência doméstica, o MJ diz ser “uma prioridade de política criminal e exige respostas particularmente rápidas e eficazes. O Ministério da Justiça está a atuar em várias frentes, em articulação com o Ministério Público e com as restantes entidades competentes”, diz o MJ, sem referir em concreto quais as frentes de atuação.

“Prioridade política”

Para Nuno Matos, presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP), os problemas estruturais só serão resolvidos “quando a justiça seja assumida como a prioridade da atuação política”. Como principais desafios, o juiz destaca a escassez de juízes e funcionários judiciais para os tribunais administrativos. Nuno Matos elenca também a infraestrutura dos prédios, como falta de ar condicionado e outros problemas que tornam “indignas” as condições de trabalho, critica, além do parque informático. Outra dificuldade é a do tempo e eficiência da justiça. “Portugal tem uma legislação muito boa e adequada, só que depois a aplicação prática não funciona”, destaca. O presidente da ASJP espera ver resultados com as medidas de agilidade processual que entraram em vigor no dia 1.º de setembro. Ao DN, o Ministério da Justiça afirma que “as medidas já adotadas permitirão que, entre 2026 e 2028, se verifique um reforço de 270 novos magistrados, entre magistrados em regime de estágio e magistrados em primeira nomeação em regime de efetividade”. “A generalidade da sociedade e frequentemente do próprio ecossistema judiciário desconhece a dimensão e a complexidade do trabalho do Administrador Judiciário, associando a gestão dos tribunais exclusivamente à atividade estritamente jurisdicional das Magistraturas”.

O que não acontece nos processos – Entre Justiça e Humanidade – CMJornal

Quem trabalha num tribunal aprende depressa que nenhum processo conta toda a história. No papel há nomes, datas, requerimentos, despachos e decisões. Cá fora, há pessoas. E é entre estas duas realidades que os Oficiais de Justiça passam os seus dias. Vejo-os a chegar cedo e a sair tarde. Uns vão para as diligências, outros atendem as pessoas ao balcão, fazem notificações, acompanham penhoras ou tentam localizar alguém que há muito deixou de atender o telefone. Há pessoas que chegam ao tribunal zangadas. Outras assustadas. E lá estão eles, com o tempo contado e o trabalho acumulado, a tentar ajudar. Não lhes cabe decidir. Não lhes cabe julgar. Cabe-lhes cumprir. Mas cumprir uma decisão quando se tem diante dos olhos uma pessoa fragilizada exige mais do que conhecer a lei e os procedimentos. Exige equilíbrio. Bom senso. E, acima de tudo, humanidade. Talvez seja por isso que este trabalho seja tão difícil de explicar a quem nunca entrou num tribunal. Porque há uma parte dele que não aparece nas estatísticas e não se mede em número de processos. É o olhar de quem está à nossa frente. No fim do dia, a Justiça continua nos processos. Mas quem trabalha nela sabe que, por trás de cada processo, há sempre uma vida.

Diálogo não é submissão – Correio da Justiça – CMJornal

Mais de 300 oficiais de justiça reuniram-se em Lisboa, num plenário de unidade e vontade de agir. A mensagem foi inequívoca: o SFJ não abdica de nenhuma matéria, não aceita omissões nem confunde diálogo com submissão. Temos apresentado contributos e soluções. Ao Governo cabe agora responder. Os tribunais retomam a atividade com menos trabalhadores do que precisam. A idade média ultrapassa os 50 anos e, em muitos, aproxima-se dos 57 ou 58. As aposentações sucedem-se, quase não entram novos oficiais e há secções reduzidas a uma única pessoa. Isto sobrecarrega quem fica e atrasa a resposta aos cidadãos. Na reunião de 31 de agosto, esperávamos calendário e respostas. Não tivemos nem uma coisa nem outra. A revisão começou em janeiro de 2025: quase dois anos de discussão, depois de 18 anos de atraso, e muito por resolver. No plenário foram propostas vigílias à hora de almoço, um cordão humano de Norte a Sul e uma greve de três dias. As propostas seguirão para a Direção Nacional do SFJ. Há nova reunião a 21 de setembro. Continuamos disponíveis para negociar, mas disponibilidade não é resignação. E diálogo não é submissão.