Com 2128,4 milhões de euros, o Orçamento do Estado para 2027 promete à Justiça obras, software, cibersegurança e quiosques de senhas. Das pessoas que fazem os tribunais funcionar, quase nada. Os guardas prisionais (e bem) contam com 200 entradas e 240 promoções. A nós coube-nos um parêntese, onde se lê que se mantém “o investimento na valorização das carreiras”. Manutenção curiosa, quando a única constante tem sido o vazio. Faltam cerca de dois mil oficiais de justiça, a média de idades ronda os 50 anos e a revisão do Estatuto arrasta-se desde 2024, de reunião em reunião, com avanços a conta-gotas. Sobre admissões, promoções ou mapas de pessoal, nem uma linha. O Governo fala de uma justiça digital, eficiente e acessível. Mas um computador novo não cumpre mandados, não atende cidadãos nem faz andar processos. Sem gente, o tribunal do futuro arrisca-se a ser um edifício impecável, com boa ligação à internet, onde só os processos prosperam. Nos plenários, os oficiais de justiça foram claros: a paciência esgotou-se. Cabe agora à Assembleia da República corrigir o que o Governo deixou de fora. Afinal, a Justiça não cabe num parêntese.
