Quem trabalha num tribunal aprende depressa que nenhum processo conta toda a história. No papel há nomes, datas, requerimentos, despachos e decisões. Cá fora, há pessoas. E é entre estas duas realidades que os Oficiais de Justiça passam os seus dias. Vejo-os a chegar cedo e a sair tarde. Uns vão para as diligências, outros atendem as pessoas ao balcão, fazem notificações, acompanham penhoras ou tentam localizar alguém que há muito deixou de atender o telefone. Há pessoas que chegam ao tribunal zangadas. Outras assustadas. E lá estão eles, com o tempo contado e o trabalho acumulado, a tentar ajudar. Não lhes cabe decidir. Não lhes cabe julgar. Cabe-lhes cumprir. Mas cumprir uma decisão quando se tem diante dos olhos uma pessoa fragilizada exige mais do que conhecer a lei e os procedimentos. Exige equilíbrio. Bom senso. E, acima de tudo, humanidade. Talvez seja por isso que este trabalho seja tão difícil de explicar a quem nunca entrou num tribunal. Porque há uma parte dele que não aparece nas estatísticas e não se mede em número de processos. É o olhar de quem está à nossa frente. No fim do dia, a Justiça continua nos processos. Mas quem trabalha nela sabe que, por trás de cada processo, há sempre uma vida.
